Introdução
Atualmente, a maioria dos educadores que estão preocupados em se inovar dentro de suas ações pedagógicas aprofundam-se nos conhecimentos psicopedagógicos. Dessa maneira, vamos pensar que é importante que o educador que dá início aos estudos sobre a psicopedagogia e os campos no qual o psicopedagogo deve atuar necessita ter conhecimento dos principais conceitos nos quais a psicopedagogia atua.
É importante, caro(a) aluno(a), que você saiba que a psicopedagogia aprofunda os seus conhecimentos técnicos, teóricos e metodológicos, que apresentam, por finalidade, a possibilidade dos educadores desenvolverem um processo de aprendizagem com uma visão ampla em relação ao sujeito cognoscente. No decorrer da sua história, esse sujeito cognoscente objetiva a plena busca do conhecimento de si mesmo e da sociedade na qual está inserido. Além disso, a psicopedagogia deve tomar como base os fundamentos da psicopedagogia clínica ou institucional (esta última será o foco do nosso estudo neste livro de Psicopedagogia Institucional: diagnóstico e intervenção).
Sendo assim, prezado(a) aluno(a), vamos refletir sobre como acontece o processo de aprendizagem com enfoque institucional nesta primeira unidade.
Bons estudos! Vamos começar!
Os Fundamentos da Psicopedagogia
Caro(a) aluno(a), conforme já mencionamos na introdução, a psicopedagogia atua na busca constante para solucionar os problemas de aprendizagem, e este assunto é extremamente difícil dentro das instituições escolares. Dessa forma, podemos afirmar que a Psicopedagogia apresenta, por objetivo, a compreensão de como se dá a aprendizagem do sujeito cognoscente.
Quando pensamos na interdisciplinaridade, devemos ter em mente a especificidade como área de estudo, buscando conhecimentos em outras áreas e criando seus próprios objetos de estudo, campos de aplicação dos estudos que foram realizados perante a análise do sujeito, do corpo teórico e os instrumentos a serem utilizados nessa análise e atuação. Logo, podemos afirmar a Psicopedagogia como interdisciplinar, pois se utiliza da pedagogia, psicologia, da sociologia, antropologia, linguística e neuropsicologia para chegar até a aprendizagem humana de uma maneira real.
É importante que você tenha em mente que essas características compõem o que chamamos de parte científica da psicopedagogia e, sendo assim, podemos afirmar que seu objetivo principal é colocar, por intermédio das atividades práticas, os conhecimentos científicos estudados, que vão ao encontro do que realmente o sujeito estudado necessita. Logo, é importante que você perceba, com esse objetivo voltado às atividades dos sujeitos, que a atividade psicopedagógica ocupa seu espaço no decorrer da história, pois mostra o seu papel de diagnosticar, identificar e intervir na aprendizagem humana.
A psicopedagogia nasceu como uma ocupação empírica pela necessidade de atender as crianças com dificuldades na aprendizagem, cujas causas eram estudadas pela medicina e psicologia. Com o decorrer do tempo, o que inicialmente foi uma ação subsidiária destas disciplinas, perfilou-se como um conhecimento independente e complementar, possuidor de um objeto de estudo (o processo aprendizagem) e de recursos diagnósticos, corretores e preventivos próprios (VISCA, 1987, p. 7).
Sobre a interdisciplinaridade, Silva e Oliveira (2007, p. 56-57) afirmam que:
[...] embora a psicopedagogia possua em seu nome os termos psicologia e pedagogia, seu significado não está relacionado à junção destas disciplinas, mas sim ligada a junção das disciplinas que estudam a aprendizagem. A psicopedagogia, sem pretender ser a solução de todos os problemas, surge como uma área que busca integrar várias disciplinas, objetivando construir um corpo teórico que embase uma atuação eficaz, sem que se divida o sujeito da aprendizagem em vários compartimentos. O caráter interdisciplinar da psicopedagogia coloca-a como um campo que teoriza contemporaneamente sobre a questão da aprendizagem, efetivando sua prática na relação de aprendizagem e saberes múltiplos. Não se fundamenta em bagagens conteudistas, mas sim em saberes significativos, configurando uma relação positiva com a aquisição de conhecimentos.
Sendo assim, elaborei esta imagem, que resume essa interdisciplinaridade:

Fonte: Elaborada pela autora.
A psicopedagogia aplica seus estudos colocando em prática sua teoria e melhorando, a cada prática, seus instrumentos com a finalidade de adquirir, de forma mais precisa, a aquisição do conhecimento acerca do ser humano. Sendo o ser humano o objeto de estudo da psicopedagogia, devemos ter em mente a importância de compreendermos como se dá a aprendizagem, as dificuldades ocorrentes durante o processo de aprendizagem e, também, a importância da atuação profissional, englobando os vários campos do conhecimento, fazendo a integração e sintetização destes campos .
Sendo assim, podemos afirmar que o objeto central de estudo da psicopedagogia é baseado no processo de aprendizagem humana, tomando como base as realidades internas e externas dos seres humanos: as maneiras como os seres humanos evoluem sem problemas, a maneira de evolução dos seres humanos que apresentam patologias, bem como a influência do meio perante o desenvolvimento do ser humano (onde esse meio refere-se à família, escola e sociedade).
Os dois campos possíveis de atuação da psicopedagogia são os âmbitos clínico e institucional em que, segundo a visão da epistemologia convergente, o objeto de análise tem como ponto de partida o sujeito que aprende, focando os grupos e instituições aos quais ele está inserido e as comunidades em que essas instituições estão inseridas. A figura a seguir mostra cada unidade de análise da psicopedagogia, segundo Visca (1987):

Fonte: Adaptada de Visca (1987).
Note que cada um desses grupos de análise representa o organismo vivo que aprende, sendo que cada uma dessas unidades são interligadas e constituídas por elementos responsáveis pela interação em seu interior. Esses elementos que fazem parte do sujeito são de caráter cognitivo e afetivo, caracterizando, assim, o que chamamos de aprendizagem intrapsíquica. Já os elementos do grupo referem-se ao conjunto de indivíduos e das estratégias. Sendo assim, chamados de mecanismos interpsíquicos (caracteriza a atividade intragrupal). Quando nos referimos aos elementos que compõem a instituição, referimo-nos ao conjunto de grupos, estratégias e mecanismos intergrupais que caracterizam a aprendizagem institucional. Por fim, os elementos da comunidade são o conjunto de instituições, estratégias e mecanismos comunitários, resultando na aprendizagem comunitária.
Acerca da imagem anterior, ainda podemos afirmar que ela fornece uma visão psicopedagógica sobre o processo de aprendizagem baseada na epistemologia convergente de Visca. Essa macrovisão, fornecida pela imagem, mostra a inserção do sujeito no meio cultural, o que facilita a compreensão do processo de aprendizagem como processo de produção e estabelecimento de conduta.
Aprendizagem: Um processo de Busca do Conhecimento
Neste tópico, falaremos mais precisamente sobre a aprendizagem e a relação dela com o objeto de estudo da psicopedagogia, que é o sujeito. Sendo assim, caro(a) aluno(a), vamos refletir mais um pouco sobre esse objeto de estudo da psicopedagogia.

Fonte: Dolgachov, 123RF.
Para começarmos, veja que o objeto de estudo da psicopedagogia vai muito além da aprendizagem, pois refere-se ao sujeito que aprende e se este sujeito é um ser capaz de conhecer a si mesmo e ao meio ambiente no qual está inserido.
O sujeito que aprende é um sujeito cognoscente, ou seja, ele é constituído das dimensões afetivas, relacionais, biológicas, funcionais e culturais, sendo que essas dimensões interagem entre si e formam um conhecimento sobre seu ambiente natural e sociocultural, bem como um conhecimento sobre si mesmo.
De acordo com Barbosa (2002, p. 40), o sujeito cognoscente é temporal e histórico e carrega consigo o conhecimento trazido de outros estudos ou vivências. Esse sujeito é capaz de planejar seu futuro e produzir conhecimentos a partir de suas experiências e, também, de todos aqueles que fazem parte do conhecimento do qual se apropria. A autora acrescenta que, como sujeito sistêmico, ele está inserido em uma série de relações e, como sujeito biológico, precisa suprir as necessidades de sobrevivência, das relações culturais, da apropriação das ferramentas sociais e da construção da sua história.
De acordo com o pensamento epistemológico, é possível perceber diferentes fases na definição do objeto de estudo psicopedagógico. Tendo como base o significado amplo e sistêmico que foi abordado, levantou-se a perspectiva que tomava como base a aprendizagem a partir seu deficit (sendo que o sujeito não podia aprender), tomando como base a importância da aprendizagem por meio da individualidade de cada sujeito, caminhando para a visão do sujeito cognoscente, que considera que esse sujeito possui um equipamento biológico dotado de afetividade e intelectualidade, onde esses componentes do equipamento biológico influenciam na forma de se relacionar com o meio. Tomando como base uma abordagem construtivista, a aprendizagem é efetivada com base na estruturação de esquemas que sugerem que diferentes dimensões coexistem para que o ser humano configure uma dinâmica própria do funcionamento.
Acabamos de falar um pouco sobre a concepção interacionista, que aborda a relação do sujeito com o objeto, mas não considera visões que apontam a relação entre sujeito e objeto partindo de uma única dimensão. Foi o princípio norteador da contribuição que Visca (1991) determinou à psicopedagogia, com o sentido de permitir uma compreensão da origem de como ocorre a aprendizagem no ponto de vista intrapsíquico, com continuidade genética e diferenças evolutivas, resultantes das condições energético-estruturais do sujeito e das circunstâncias do meio.
Tomando como base essa contribuição de Visca pautada no interacionismo, construtivismo e estruturalismo é que se define, por intermédio da epistemologia convergente, um conteúdo teórico e técnico que propõe uma leitura integradora do processo de aprendizagem. Essa teoria de Visca foi chamada de epistemologia convergente, e a concepção teórica está pautada integrando três importantes escolas, que são: de Genebra, de Jean Piaget; Psicanalista, de Sigmund Freud; e a escola da Psicologia Social, de Enrique Pichon-Rivière.
Vamos ver o que cada uma dessas escolas propõe:
Quadro 1.1 - Escolas que serviram de base para a Epistemologia Convergente
Fonte: Adaptado de Visca (1991, p. 19-20).
A Figura 1.4 mostra o esquema dos diferentes níveis de aprendizagem e, também, as ligações estabelecidas nesse processo.

Fonte: Visca (1991, p. 27).
A imagem que acabamos de ver retrata esquemas de aprendizagem. Perceba, caro(a) aluno(a), que a aprendizagem envolve uma continuidade genética, e essa continuidade está disposta em quatro diferentes e importantes níveis, que estabelecem o processo particular de aprendizagem de cada um de nós, conforme as características qualitativas existentes na nossa evolução.
Vamos estudar cada um dos níveis separadamente para que você compreenda o que acontece em cada um deles.
Começamos, assim, pelo primeiro nível de aprendizagem, que é a protoaprendizagem. Esse nível refere-se às primeiras aprendizagens e se estabelece desde as primeiras relações vinculares (afetivas e cognitivas), estendendo-se até o momento em que, por meio de transformações qualitativas, o sujeito começa a entrar em contato com seu meio familiar. É o nível em que a função materna coloca-se como objeto privilegiado e mediador das características culturais, da história familiar e da sua situação atual. Essa relação, que funciona como se o sujeito estabelecesse um limite, é denominada “placenta biológica”, que é onde se estabelece a relação de sensibilidade entre o sujeito e sua mãe. Com relação aos processos inter e intra psíquicos, podemos afirmar que operam de forma cognitiva e afetiva perante um movimento de desenvolvimento que pode dar-se de forma regular ou irregular, que pode se apresentar em três momentos:
a- indiscriminação: quando os sistemas cognitivo e afetivo se encontram indiferenciados;
b- discriminação: esse é o processo pelo qual os sistemas cognitivo e afetivo vão se diferenciando, sendo que parte do afetivo investe no aspecto motor.
c- integração: nesse momento, o sistema motor dá lugar ao aparecimento do simbólico, e este dá lugar à construção da cognição operativa, ou seja, podemos dizer que há uma transformação da conduta da mãe em protoaprendizagens do filho.
A relação entre os meios interno e externo permite que o sujeito absorva um enriquecimento em função do qual se opera o crescimento psicológico, que implica numa construção tanto cognitiva como afetiva.

Fonte: Famveldman, 123RF.
Posterior à protoaprendizagem, temos o segundo nível que, é a deuteroaprendizagem. Este nível é também chamado de segunda aprendizagem, pois esta vai sendo elaborada a partir da interação e das trocas entre o sujeito (que chega ao nível de protoaprendizagem) e o grupo familiar no qual está inserido. Este nível vai até onde o sujeito, com uma maior facilidade nos relacionamentos, aumenta o seu meio de aprendizagens e aprende novas visões de mundo, diversificando o investimento de suas estruturas cognitivas e energéticas. Nesse nível de aprendizagem, também, temos os processos inter e intrapsíquicos, e tal nível diferencia-se do anterior, pois a criança tem como principal objeto de interação os membros da família e as relações que eles estabelecem entre si e, também, os objetos animados ou inanimados, onde as relações ocorrem em uma escala de valores.
A relação entre a mãe e o sujeito, que começou na protoaprendizagem, continua nesse segundo nível, mas, nessa fase, a mãe permite a participação de terceiros no processo de aprendizagem do sujeito, permitindo que este nível torne-se mais elaborado.
Geralmente, é nesse nível que o sujeito entra para a escola e é nessas instituições que ocorrem desenvolvimento harmônico, experiências mediadas e amadurecimento das estruturas motoras, afetivas e cognitivas.

Fonte: Stylephotographs, 123RF.
Visca (1999, p. 52), afirma que é nesse nível que se inicia a função semiótica, com as cinco condutas descritas por Jean Piaget:
imitação diferida: é quando predomina o processo de acomodação sobre o processo de assimilação e o sujeito deve adequar-se ao modelo;
o jogo simbólico: é nesta conduta que predomina o processo de assimilação, levando o sujeito a incorporar seus desejos e fantasias na relação com as necessidades externas, sendo que no faz de conta elabora suas emoções e sua cognição;
o desenho: nesta conduta se equilibram os processos de assimilação e acomodação, levando o sujeito a desenvolver suas invariantes funcionais;
a linguagem: é nesta conduta que o sujeito começa a dar nome às coisas e por meio das primeiras palavras vai criando grupos conceituais que o ajudam a dar unidade ao pensamento;
a imagem mental: é onde o sujeito desenvolve para transformar interiormente um estado presente em um estado futuro.
O terceiro nível de aprendizagem, conhecido como aprendizagem assistemática, é caracterizado pelas interações que o sujeito obteve no segundo nível (que é a deuteroaprendizagem) e a comunidade na qual está inserido. As interações com a comunidade que resultam em aprendizagem a partir das experiências vividas ocorre nos sentidos horizontal (onde o sujeito conhece apenas os lugares próximos - bairro e cidade) e vertical (onde o sujeito entra em contato com os níveis mais complexos da sua cultura), fornecendo instrumentos que proporcionam conhecimentos, atitudes, destrezas que permitem acesso à sociedade culturalmente definida na qual este sujeito está inserido.
É neste nível que ocorre o contato com o significado real da escrita e do sistema monetário aplicado em ações (acompanhar os pais ao supermercado, à loja, à panificadora, ao açougue, etc.).

Fonte: Maximkabb, 123RF.
É importante que saibamos perceber que tais estímulos implicam em conhecimentos, atitudes e destreza diante das situações do dia a dia.
O caráter assistemático é dado não porque nos âmbitos intrapsíquico e social os fatores constitutivos não estejam organizados, mas porque os intercâmbios propostos pelo meio precisam do nível de consciência, graduação, rítmo e metodologia com que se efetivam nas instituições educativas (VISCA,1991, p. 26).
E, por fim, temos o quarto nível que é chamado de aprendizagem sistemática. É neste nível que ocorre uma relação mais intrínseca do sujeito com a sociedade e, como sociedade, devemos considerar as instituições escolares. Assim, podemos dizer que a inserção do sujeito na sociedade proporciona uma transformação ou adequação da cultura adquirida como um conhecimento teórico-pedagógico, e a isto podemos ressaltar a leitura realizada pelo sujeito, a escrita e os conhecimentos matemáticos pautados no cotidiano. Essa maneira de aprendizagem pautada no construtivismo, na cultura, é de extrema importância, pois desperta no sujeito uma macrovisão acerca da sua inserção social e faz com que o sujeito busque seus conhecimentos por meio de experiências vivenciadas. A visão macro do sujeito, com a ajuda do psicopedagogo, muda os paradigmas de uma aprendizagem mecânica e estática para uma aprendizagem onde o sujeito, mesmo com problemas de aprendizagem, será estimulado a aprender compreendendo a sociedade à qual pertence, considerando o parecer do psicopedagogo e as suas possibilidades.

Fonte: Bizón, 123RF.
Esses são os quatro níveis de organização que mostram a aprendizagem em diferentes etapas da vida do sujeito. Resumindo cada um desses níveis, temos:
Protoaprendizagem: refere-se às primeiras relações vinculares mais próximas.
Deuteroaprendizagem: refere-se à aprendizagem no meio familiar.
Aprendizagem assistemática: refere-se à aprendizagem na comunidade.
Aprendizagem sistemática: refere-se à aprendizagem na educação formal.
A Psicopedagogia Institucional: Q que é e o que Estuda?
A psicopedagogia institucional teve origem nos problemas relacionados à aprendizagem. Porém, os estudos que são realizados nessa área estão cada vez mais voltados a prevenir, pois se percebeu que determinadas atitudes deveriam ser tomadas antes dos problemas que eram encaminhados às clínicas (não somente na psicopedagogia clínica), além de um acervo que permitisse ao estudioso compreender melhor a práxis da aprendizagem.

Fonte: Bialasiewicz(B), 123RF.
Um problema muito recorrente que os sujeitos enfrentam no desenvolvimento da aprendizagem é que o diagnóstico psicopedagógico, que deveria ser bem criterioso, muitas vezes, é influenciado por outros diagnósticos externos ao problema do sujeito, e isso, ao invés de ajudar na solução dos problemas, apenas ameniza ao invés de solucionar. Assim, os profissionais que atuavam em questões sobre o processo de aprendizagem ampliaram seu campo de atuação para âmbitos mais abrangenteS, concentrando-se nas causas das primeiras dificuldades de aprendizagem.
Pensando nas instituições que fazem parte do sujeito e pensando no sujeito como aquele que busca o conhecimento com ações mais preventivas do que remediativas, podemos dizer que o psicopedagogo tem o poder de transformar a atenção individual em grupal, de forma a considerar as mais distintas relações e, também, direcionando a atenção voltada para o todo e vindo à tona a realidade na sua totalidade. Logo, podemos dizer que a individualidade de cada sujeito deve ser pensada dentro do contexto em que é produzida e de acordo com as relações sociais.
Bossa (2000, p. 89), afirma que:
[...] a psicopedagogia institucional se caracteriza pela própria intencionalidade do trabalho. Atuamos como psicopedagogos na construção do conhecimento do sujeito, que neste momento é a instituição como sua filosofia, valores e ideologia. A demanda de instituição está associada à forma de existir do sujeito institucional, seja ele a família, a escola, uma empresa industrial, um hospital, uma creche, uma organização institucional.
Podemos dizer, de certa forma, que a psicopedagogia institucional e a psicopedagogia clínica estão inseridas em uma mesma disciplina, que atua em diferentes âmbitos. Então, não devemos caracterizar práticas diferenciadas em cada uma delas, porque, dessa maneira, estaríamos falando de diferentes psicopedagogias, e não apenas de âmbitos de atuação. Dessa forma, a psicopedagogia deve ser vista na totalidade e cada âmbito de atuação com suas particularidades.
Assim, Barbosa (2001, p. 104) afirma que:
[...] sempre que estivermos lendo as referências sobre a psicopedagogia institucional, leia-se psicopedagogia atuando no âmbito institucional, e, portanto, apresentando especificidades, o que não impede de relacionarmos seus conteúdos aos indivíduos, aos grupos, à comunidade e à cultura que fazem parte da construção de uma instituição.
É muito comum pensar que a psicopedagogia é uma área exclusivamente voltada para a instituição educacional. Entretanto, o olhar sobre a aprendizagem que ela se propõe a estabelecer oferece espaço para a psicopedagogia nas mais diversas instituições, visto que o processo de aprendizagem é algo constante no desenvolvimento do sujeito, inserido em qualquer contexto social.
Podemos afirmar, caro(a) aluno(a), que a psicopedagogia institucional mostra as inúmeras possibilidades de construção do conhecimento e valorização do imenso universo de informações que nos rodeia.
O campo de atuação do psicopedagogo sobre a aprendizagem pode dar-se nos mais diversos âmbitos institucionais: hospitais (quando crianças estão em tratamento, ensinando os novos caminhos e obstáculos que ela deverá enfrentar, o que ela pode ou não fazer, e novas maneiras de aprender fora do âmbito institucional escolar); auxiliando um motorista de ônibus que tenha que aprender novos trajetos e estabelecer novas relações, tendo em mente uma nova distribuição espacial da cidade; entre outros campos de atuação.
REFLITA
Papel do Psicopedagogo
Para o Psicopedagogo, aprender é um processo que implica pôr em ações diferentes sistemas que intervêm em todo o sujeito: a rede de relações e códigos culturais e de linguagem que, desde antes do nascimento, têm lugar em cada ser humano à medida que ele se incorpora a sociedade (BOSSA, 1994, p. 51).
Sendo assim, qual é o verdadeiro papel do psicopedagogo nas instituições? Em qual desses papéis você acredita que seu trabalho, enquanto psicopedagogo(a), teria maior chance de êxito?
Fonte: Adaptado de Bossa (1994)
De acordo com Fagali e Vale (2003, p. 89), dependendo da natureza da instituição, a psicopedagogia pode contribuir, trabalhando vários contextos:
Psicopedagogia familiar, ampliando os processo de aprendizagem dos seus filhos, resgatando a família no papel educacional, complementar à escola, diferenciando as múltiplas formas de aprender, respeitando as diferenças dos filhos.
Psicopedagogia empresarial, ampliando as formas de treinamento, resgatando a visão do todo, as múltiplas inteligências, trabalhando a criatividade e os diferentes caminhos para buscar saídas, desenvolvendo o imaginário, a função humanística e dos sentimentos na empresa, ao construir projetos e dialogar sobre eles.
Psicopedagogia hospitalar, possibilitando a aprendizagem, o lúdico e as oficina psicopedagógicas com os internos.
Psicopedagogia escolar, priorizando diferentes projetos.
Diagnóstico da escola.
Busca da identidade da escola.
Definições de papéis na dinâmica relacional em busca de funções e identidade, diante do aprender.
Instrumentalização de professores, coordenadores, orientadores e diretores sobre práticas e reflexões diante de novas formas de aprender.
Reprogramação curricular, implantação de programas e sistemas avaliativos.
Oficinas para vivência de novas formas de aprender.
Análise de conteúdo e reconstrução conceitual.
Releitura, ressignificando sistemas de recuperação e reintegração do aluno no processo.
Papel da escola no diálogo com a família.
Quando voltamos nossos olhares à instituição escolar, devemos pensar no meio social no qual a instituição está inserida, pois essa é parte integrante da cultura da escola e da cultura da qual fará parte o educando, voltando nossos olhares às relações entre os sujeitos da aprendizagem, ao comportamento de cada um deles, ao interesse no aprendizado e, principalmente se todas as ações escolares vão de acordo com os objetivos propostos pela instituição, pautadas nas regras e leis escolares.
Considerando as instituições escolares, o psicopedagogo apresenta o papel de atuar de forma preventiva, realizando uma análise cognitiva, afetiva, social e biológica dos sujeitos participantes da instituição. Dessa forma, o profissional que possui esses conhecimentos psicopedagógicos deve ter uma visão ampla entre o grupo na totalidade e também uma visão detalhada da particularidade de cada sujeito, a fim de que ele desenvolva autonomia e domínio dentro da instituição, objetivando que as metas propostas sejam atingidas.
SAIBA MAIS
Importância da psicopedagogia institucional
Para saber mais sobre a importância da psicopedagogia institucional na escola, leia a reportagem acessando o link disponível em: https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/idiomas/a-importancia-da-psicopedagogia-institucional-na-escola/52781.
Fonte: elaborado pela autora.
Aqui, ressaltamos o objetivo do trabalho do psicopedagogo dentro da instituição, que é assegurar uma dinâmica integradora na escola na totalidade, levando ao trabalho da reflexão, do pensamento crítico, superação das dificuldades e união entre todos que participam da comunidade escolar. Perceba que, dessa forma, é indispensável o trabalho das questões didáticas com os docentes, com a família e a escola, planejando diversas estratégias a fim de superar os obstáculos que possam surgir, avaliar e garantir a efetivação do processo de ensino-aprendizagem, com um olhar mais atento ao currículo, à inserção de projetos pedagógicos, entre outras necessidades.
Assim, de acordo com Porto (2011, p.123):
O psicopedagogo institucional trabalha com múltiplas fontes de dados, decorrentes do uso que faz de inúmeros métodos (observação, conversas casuais, entrevistas, documentos), múltiplos tipos de participantes (secretarias de educação, superintendências, orientadores educacionais, especialistas em currículo, diretores, professores, entre outros) e várias situações (reuniões de diversos tipos, oficinas de trabalho, vida em instituições etc.).
Perceba que a psicopedagogia institucional é, necessariamente, um trabalho conjunto, em que o psicopedagogo desempenha um importante papel: dar suporte à equipe escolar no processo de diagnosticar e conduzir uma intervenção psicopedagógica eficaz dentro do que a escola propõe no seu Projeto Político Pedagógico, a fim de que as dificuldades sejam superadas, o diagnóstico seja bem definido e haja uma intervenção que seja eficaz.
Indicação de leitura
Psicopedagogia Institucional: Guia Teórico e Prático
Editora: Wak
Autor: Beatriz Acampora e Bianca Acampora
Ano: 2017
ISBN: 978-8578543891
Comentário: Esse livro leva a refletir sobre os processos de aprendizagem, pois estes variam, uma vez que cada pessoa apresenta suas experiências de vida e uma visão particular de como lidar com o mundo. Ainda, há o destaque da compreensão de que cada pessoa é única e tem sua maneira particular de aprender, e isso favorece a construção do conhecimento e da autonomia humana.


